Reagindo à Crise Mundial 19/11/2009
A macroeconomia da crise
Se a crise financeira global pode ser entendida como o resultado do paroxismo da financeirização do mundo, ela durará o tempo que for necessário para que a órbita financeira exacerbada se reconcilie com a economia real. É como no jogo infantil de cadeiras: há gente demais rodando em volta, e cadeiras de menos para se sentar. As medidas governamentais nos Estados Unidos, na União Européia e no Brasil para salvar o sistema financeiro são uma tentativa de desinflar o balão de forma controlada. Quase certamente terão resultado bastante limitado.
A frondosa árvore financeira que recobria e ainda recobre o mundo envolve números estonteantes. Os ativos financeiros eram estimados, em meados deste ano, em 167 trilhões de dólares. Os derivativos, ou seja, os direitos e obrigações que orbitam em torno deles atingiam estonteantes 600 trilhões de dólares. Comparadas ao montante do Produto Mundial Bruto, de pouco menos de 60 trilhões de dólares, essas cifras dão uma idéia do tamanho do balão a ser esvaziado, e da quantidade de cadeiras que seriam necessárias para acomodá-los.
Façam-se alguns exercícios primários em torno disso. Dos ativos financeiros, os mais próximos da economia real, apenas os títulos públicos têm garantia absoluta. Os demais, como ações, debêntures e CDBs estão vinculados à segurança econômica de seus emissores. Ações podem virar pó. Se foram usadas como garantia de alguma dívida, o credor leva o calote. As debêntures conversíveis em ações dependerão dos resultados das empresas emissoras. Se as ações destas caírem, não haverá conversão, e o titular vai se apresentar no caixa. Entretanto, o caixa pode estar vazio.
Comparadas ao montante do Produto Mundial Bruto, de pouco menos de 60 trilhões de dólares, essas cifras dão uma idéia do tamanho do balão a ser esvaziado.
Mais dramático é o caso dos derivativos. São direitos e obrigações sem garantia real. São negociados na base de margens, um percentual de seu valor que se torna irrelevante na crise. É o caso dos mercados futuro de câmbio e de juros, os swaps normais ou reversos, o mercado de opções. Diante do volume global desses contratos, o mercado sub-prime norte-americano é apenas a ponta do iceberg. E ainda mais assustador é que, não operando com qualquer tipo de garantia real, não têm como suscitar operações de salvamento pelos governos.
É claro que, no fim de um processo de purga, a órbita financeira vai ter que se reconciliar com a órbita real. Difícil é visualizar quem exatamente vai se salvar. O mais provável é que haja uma corrida para títulos públicos, o barco salva-vidas comum na hora das grandes crises. A taxa de juros tenderá a baixar, e os governos, se agirem direito, ficarão com um grande montante de dinheiro em caixa. O problema é o que fazer com esse dinheiro. Se o esterilizarem, acentuarão a deflação e a recessão. Se gastarem em boas políticas públicas, poderão salvar o mundo.
O Prêmio Nobel Paul Krugmann publicou há poucos dias um artigo dizendo que é hora de gastar. Está coberto de razão. Pois tem-se falado muito, até aqui, em como salvar o sistema financeiro, sem que se dê conta dos riscos que corre o sistema produtivo e, principalmente, o emprego. O segundo tempo de uma crise financeira, sobretudo de uma crise global como atravessamos, é uma quebra de parte do sistema produtivo e a generalização do desemprego. A Inglaterra e os Estados Unidos já estão sofrendo essas cosequências. Quanto ao Brasil, de te fabula narratur!
Tivemos taxas de desemprego cadentes desde 2006. No último ano, a taxa caiu dois pontos percentuais, um excelente performance. Contudo, essa tendência acaba de ser descontinuada. Em setembro, o desemprego ficou nos mesmos 7,6% de agosto. Note-se que, no nosso caso, a crise apenas se esboçava. O último trimestre deve acusar o golpe, e no primeiro trimestre do ano que vem teremos, provavelmente, o impacto direito da crise, voltando provavelmente aos dois dígitos em prazo curto. É aí que entra Paul Krugmann: hora de gastar.
A execução do Projeto Cidade Cidadã significaria enfrentar o desemprego simultaneamente com a regeneração das periferias sociais de nossas metrópoles.
Nosso problema é que, para gastar, é preciso ter orçamento. E o orçamento que está sendo preparado agora é para ser executado num ambiente macroeconômico totalmente diverso do atual. O relator do orçamento, Senador Delcídio, terá de usar toda a sua inteligência para legar ao País um orçamento que funcione efetivamente como anti-cíclico, para aliviar os rigores da crise. É o caso, por exemplo, de uma provisão orçamentária para a execução do Projeto Cidade Cidadã, que significa enfrentar o desemprego simultaneamente com a regeneração das periferias sociais de nossas metrópoles.