Imprensa Internacional 17/11/2009
F.Times entrevista Lula
A edição internacional do jornal “Financial Times” publicou, em inglês, duas entrevistas históricas. Uma, há cerca de dois meses, com a ministra Dilma Roussef, a respeito principalmente do pré-sal, e outra, mais recentemente, com o Presidente Lula, sobre os temas brasileiros e mundiais do momento. O “Financial Times” é notável por suas grandes reportagens, em geral conduzidas com extremo profissionalismo – seja entrevistando o Presidente do Irã, seja o Presidente da Rússia, ambas publicadas nos dois últimos meses. Com Dilma e Lula, ela se superou.
O jornalismo brasileiro não sabe ou se esqueceu de como fazer entrevistas. O repórter acha que para agradar o leitor ele deve atacar o entrevistado. Não faz perguntas, faz acusações. Desvia o entrevistado de uma linha de raciocínio nas respostas. Com isso, ao fim de uma entrevista ou reportagem, sabemos quase tudo o que pensa o repórter, e muito pouco do que pensa o entrevistado. As duas entrevistas mencionadas ilustram como se pode perguntar rigorosamente tudo, sem subserviência ao entrevistado, porém sem insolência e com total objetividade. E é de certa forma lamentável constatar que, para saber como pensam os altos dirigentes brasileiros sobre temas de real interesse nacional, tenhamos que recorrer a um jornal inglês. Eis trechos das entrevistas.
Transcrição de Entrevista: Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Lionel Barber, editor do Financial Times e Jonathan Wheatley, correspondente no Brasil, entrevistaram o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Londres, no dia 04/11/2009.
Financial Times: Sr. Presidente, como foi possível para o Brasil superar esta crise econômica mundial tão rapidamente?
Presidente Lula: Bem, primeiro, acredito que é importante entender o que aconteceu no Brasil antes da crise. Estávamos determinados a dar fim à paralisia que o Brasil sofreu nas décadas de 1980 e 1990. O Brasil teve que voltar para a estrada do crescimento e investir em infra-estrutura, como uma pré-condição para o sucesso nas décadas futuras. Um fato importante é que muitas das medidas tomadas por alguns países após a crise já tinham sido tomadas pelo Brasil em janeiro de 2007.
Vou te contar uma coisa que vai soar como ironia do destino. Eu estava com medo de concorrer a um segundo mandato. Não me agradava a idéia de concorrer novamente. Por quê? Porque eu tinha a impressão que um segundo mandato poderia ser somente mais do mesmo. Faltaria-me motivação e as coisas não correriam bem, e tudo o que eu tinha conseguido realizar no primeiro mandato não seria suficiente para sustentar um segundo. E eu ainda tinha em mente a experiência ruim de Fernando Henrique Cardoso em seu segundo mandato. Isso ainda estava na minha cabeça.
Pois bem. Em 2006, discutindo sobre o segundo mandato, eu disse aos meus colegas que seria necessário iniciar 2007 com um programa de investimento que nos deixaria ocupados pelos próximos quatro anos. E preparamos o PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento. O PAC seria lançado em 2006, porém, um de meus assessores de comunicação me aconselhou a não lançá-lo naquele ano, já que isso seria visto como parte da campanha política durante as eleições e me faria perder credibilidade com o público.
Meus assessores disseram: o senhor não precisa do Programa de Aceleração do Crescimento para ganhar as eleições presidenciais de 2006. Então, o PAC teve que ser lançado depois das eleições, e assim foi feito, em 22 de janeiro de 2007. O PAC foi uma das principais razões pela qual a crise chegou tarde ao Brasil e é uma das razões porque ela terminou primeiro no país. Para um país desenvolvido, US$ 300 bilhões em investimentos não é nada, mas para um país do tamanho do Brasil, que não estava acostumado a fazer tais investimentos públicos, um programa de investimento do governo de US$300 bilhões durante quatro anos foi um desafio extraordinário.
Daí, o que aconteceu de fato foi que, quando a crise chegou, o Brasil já estava fazendo vários investimentos que os outros países só começaram a discutir naquele momento. O Brasil já estava fazendo esses investimentos. As coisas já estavam encaminhadas, e durante uma reunião com o Ministro da Fazenda, o Presidente do Banco Central e o Ministro do Planejamento, eu disse: temos que lidar com a economia a partir de agora como se estivéssemos em guerra.
Não há tempo a perder fazendo reuniões e ouvindo um monte de gente falar. As medidas anticíclicas têm de ser implementadas imediatamente. E tivemos a participação do Congresso. Isso foi muito importante, porque todas as medidas, todas as leis que repassamos ao Congresso para confrontar a crise foram aprovadas muito rapidamente. Até mesmo a oposição aprovou essas medidas muito rápido, em uma demonstração nítida de que todos estavam muito preocupados com os efeitos da crise em nosso país.
É importante lembrar que, em 22 de dezembro de 2008, fiz algo que nunca pensei que faria. O pânico estava tomando conta da imprensa e da mídia em relação aos EUA, sobre o que estava acontecendo no Reino Unido, na Europa, e sobre a crise global, e todo mundo estava dizendo que o consumo ia cair. Então, eu fui para a TV em rede nacional e fiz um pronunciamento de nove minutos para pedir que o povo brasileiro comprasse mais, consumisse mais, de maneira responsável. Havia essa idéia de que o trabalhador não estava comprando mais porque tinha medo de perder o emprego e que não poderia pagar suas compras parceladas, suas dívidas. Eu fui à televisão para dizer que era compreensível que ele estivesse com medo de perder o emprego, mas que era certo que ele perderia o emprego se não comprasse nada. Era necessário, dentro do orçamento de cada um, que nós comprássemos tudo aquilo que tínhamos interesse em comprar.
Ao mesmo tempo, nós demos brechas fiscais para a indústria automotiva, para produtos de linha branca, refrigeradores, máquinas de lavar, fogões e materiais de construção. E, por último, mas não menos importante, anunciamos um programa de construção de um milhão de casas para famílias de baixa renda, das quais metade era para as famílias de renda muito baixa, de zero a três salários mínimos. E injetamos R$ 100 bilhões, o equivalente a US$ 50 bilhões, mais ou menos, no banco de desenvolvimento nacional (BNDES), um banco estatal, para que ele pudesse financiar os projetos de desenvolvimento.
Liberamos outros R$ 100 bilhões dos depósitos compulsórios que os bancos têm de manter no Banco Central, para abrir fluxos de crédito. Fizemos com que esses bancos estatais comprassem carteiras de bancos menores, que foram usadas para financiar compras de carros usados, e tomamos a iniciativa de comprar dois importantes bancos; o Banco do Estado de São Paulo (BANESPA) e 50% do Banco Votorantim, que é um banco privado.
Por que fizemos isso? Porque o mercado de carros usados estava paralisado; sem vender. Se você não vende um carro usado, não compra um carro novo, e o Banco do Brasil, que é um banco estatal, não tinha experiência nesse ramo, no financiamento de carros usados. Então, em vez de treinar esse pessoal para que aprendessem a financiar carros usados, compramos um banco que já tinha grande conhecimento no mercado de carros usados, compramos 50% desse banco.
E hoje, graças a Deus, o mercado está normalizado e a indústria automobilística no Brasil está vendendo carros novos.
Depois, enfrentamos também um sério problema com a venda de caminhões, e eu queria renovar a frota de caminhões no Brasil. Então, desenvolvemos um programa de financiamento para permitir a compra de novos caminhões sob condições altamente vantajosas. Para que o motorista autônomo possa comprar seu caminhão próprio.
Em julho do ano passado, lançamos outro programa chamado “Mais Alimentos” e financiamos a compra de 60.000 tratores e 300.000 máquinas agrícolas para a agropecuária familiar.
FT: Sr. Presidente, falando em um quadro geral por um instante, o senhor disse que estava preocupado com o seu segundo mandato. Muitos financistas internacionais, os mercados e Wall Street estavam preocupados com o seu primeiro mandato. Eles o interpretaram mal? Que tipo de socialista é o senhor?
PL: Primeiro, eles não me interpretaram mal. Aqueles que leram minha biografia, acompanharam a maneira responsável com que conduzi negócios no movimento sindical no Brasil, e se levarem em conta o fato que eu perdi três eleições anteriores, e que esperei 12 anos, isso é tempo suficiente para um partido amadurecer e para um candidato amadurecer. Eu era o único candidato no Brasil que não podia falhar. Não poderia me dar ao luxo de cometer erros. Não poderia fazer o que [Lech] Walesa fez na Polônia, ou então nenhum trabalhador poderia ser eleito presidente novamente. Eu trabalhava com a idéia de que precisava vencer para que outros trabalhadores pudessem ter os mesmos sonhos que eu tive, que eles também poderiam concorrer à presidência. Eu estava trabalhando de modo obsessivo, com a convicção de que não poderia cometer nenhum erro.
Então, a nível internacional, acredito que fizerem uma análise sociológica às pressas. Eles prejulgaram minha pessoa, meu ser, meu partido e minhas possibilidades. Os melhores intelectuais do Brasil estavam me apoiando. Eu tinha a maioria dos movimentos sociais ao meu lado. Tinha apoio da maioria do movimento trabalhista. Tinha ao meu lado uma grande parte da esquerda do Brasil. Tinha ao meu lado, também, o que me faltou para vencer as eleições nos anos anteriores, um grande empreendedor como vice-presidente; ter alguém da classe empresarial para ser meu vice-presidente, para que eu pudesse ganhar o voto daqueles 20% que me faltaram em cada eleição anterior.
Então, apresentei como vice-presidente uma pessoa que eu considero o melhor vice-presidente do mundo, um homem do mundo dos negócios que hoje tem a maior empresa têxtil do mundo. Ele foi meu vice-presidente e me ajudou a quebrar os tabus e todos os preconceitos no mundo dos negócios. Esta foi uma ação importante que alguns setores do mercado só começaram a entender após as eleições, e quero dizer publicamente aqui que o Sr. Gordon Brown foi uma pessoa muito importante nesse sentido, porque durante todo esse tempo, ele confiou no Brasil e sempre falou bem do meu governo. E o diretor-executivo do FMI, lembro de uma reunião em Paris em 2003 quando estava falando com [Horst] Köhler sobre o Brasil, sobre a minha vida. Isso foi quando eu tinha menos de um mês no cargo. E, de repente, estávamos nos abraçando e chorando.
FT: O que, o senhor e Köhler?
PL: Sim, em Paris, em janeiro de 2003. Então, houve muita compreensão de alguns líderes internacionais, apoiando nossas políticas, diferentemente de outros períodos. Todos os que foram nos visitar sabiam dos nossos esforços, e então começaram a falar bem do Brasil pelo mundo. Então, os mercados perderam um pouco do preconceito, e [Jacques] Chirac foi uma figura muito importante que me apoiou. Olha só, estou falando de pessoas do bloco da direita.
FT: O senhor persuadiu [George W.] Bush?
PL: Sim. Sou muito grato ao Presidente Bush. Lembro como se fosse hoje. No dia 10 de dezembro de 2002, antes da minha posse, fui à Casa Branca conversar com o Presidente Bush. Bush estava falando sobre a Guerra do Iraque (a futura Guerra do Iraque) de um modo muito obsessivo, e dizendo que estava lutando contra o terrorismo… Ele falava de maneira muito franca. Depois de 40 minutos, eu disse: Presidente Bush, o Iraque está a 14.000 quilômetros do meu país. Não tenho nada contra o Iraque, mas tenho outra guerra a travar no Brasil. É a guerra para acabar com a fome no meu país. Esta é a minha prioridade. Daí em diante, estabelecemos uma amizade muito boa. Fiquei amigo do Bush.
FT: Sr. Presidente, quero fazer outra pergunta sobre economia, mas muito rapidamente. O senhor mencionou que foi a sua ótima coligação que o ajudou a ganhar o seu primeiro mandato. Essa coligação vai durar depois que o senhor sair do cargo?
PL: Sim.
FT: Por quê?
PL: Sim, e estamos construindo essa coligação. Em primeiro lugar, porque, seja quem for o futuro presidente, ele não será capaz de mudar todas as conquistas que a sociedade brasileira vem usufruindo. Segundo, porque eu tenho uma candidata muito boa, ela é muito competente, ela conhece o Brasil muito bem. Poucas pessoas conhecem o Brasil tão bem quanto ela, a grande gerente do sucesso do nosso governo.
FT: Mas ela não tem o seu carisma, Sr. Presidente.
PL: Ela vai ter que construir esse carisma. Uma coisa que acredito ser importante é, se eu conseguir eleger a Dilma, a minha maior contribuição vai ser permitir que ela desenvolva seu próprio estilo, sua própria maneira de fazer as coisas.
FT: O senhor já pensou em um terceiro mandato? Pergunto isso porque acabei de passar uma hora e meia com o Presidente [Álvaro] Uribe.
PL: Comecei essa entrevista dizendo que estava com medo do meu segundo mandato. Acredito que o sucessor que consegue passar por uma eleição não tem o direito de pensar em um terceiro mandato, porque o sucessor, uma vez eleito, tem direito a um segundo mandato.
FT: Vamos voltar à economia. Esse crescimento que o senhor presenciou é sustentável? É muito dependente de commodities?
PL: Não, não é dependente de commodities. É um crescimento sustentável que envolve várias indústrias diferentes. Commodities, sim, são importantes. O setor industrial é importante. Exportações são importantes. A indústria naval e a indústria de construção são importantes. A indústria de petroquímicos é importante. Quer dizer, tomamos a decisão de fazer do Brasil uma economia grande e real, e Deus nos ajudou de duas maneiras, basicamente.
Primeiro, porque o mundo vai continuar a precisar de mais comida, e o Brasil tem todas as condições para produzir parte desses alimentos. Segundo, porque acabamos de descobrir uma grande fonte de petróleo, e não queremos usá-lo como os países produtores de petróleo: ser somente exportadores de petróleo cru e não usar o petróleo para o desenvolvimento doméstico. Daí estamos desenvolvendo um fundo sob a nova estrutura reguladora da indústria do petróleo, somente para cuidar especificamente…
FT: O senhor não tem medo que a intervenção do Estado seja muito forte?
PL: Não. Estamos desenvolvendo um fundo com o objetivo de investir em educação, ciência e tecnologia, saúde, cultura e meio ambiente. Estas são as prioridades. Este é um fundo que será investido nos mercados, e vamos gastar todos os investimentos que temos neste fundo. Não vamos gastar o dinheiro deste fundo. Queremos ser exportadores de derivados do petróleo, não exportadores de petróleo, porque queremos desenvolver, em conjunto, uma forte indústria do petróleo e uma forte indústria naval. Queremos construir nossas próprias plataformas de perfuração, nossas plataformas marítimas e nossos próprios navios. Também queremos desenvolver uma forte indústria petroquímica. Já estamos trabalhando nisso.
FT: A Petrobras é uma empresa de porte mundial. Sabemos disso. Porém, vocês vão precisar de tecnologia estrangeira.
PL: Sim, e queremos isso, e também queremos dividir nossos conhecimentos com os estrangeiros, por isso estamos nos esforçando para que as empresas de petróleo de todo o mundo desenvolvam parcerias conosco, na construção de estaleiros secos, para que possamos construir equipamentos no Brasil.
FT: Muitas pessoas que criticam o seu governo, mas também pessoas não tão críticas, disseram que há uma extensão da intervenção do Estado nisso. Houve uma pressão sobre a Vale, por exemplo, para que ela investisse em siderurgia. Como o senhor vê a relação entre os setores público e privado em um futuro governo?
PL: Acredito que, analisando as coisas direito, duvido que em algum momento na história do nosso país o setor privado tenha tido mais respeito do Estado do que tem agora. Duvido que eles alguma vez tenham recebido tanta atenção ou se já lucraram mais do que neste momento. O que eu pedi à Vale é que transformassem minério de ferro em aço no Brasil, e, ao mesmo tempo, que comprassem o maquinário e os navios necessários no país, porque é assim que se leva tecnologia a uma nação.
Agora, se isso não for feito, o que acontece? Vamos vender todo o nosso minério de ferro para a China. A China vai construir os grandes navios. A China fabrica 540 milhões de toneladas de aço, e o Brasil, só 35 milhões. Também precisamos exportar um pouco de valor agregado.
Também precisamos exportar um pouco de valor agregado.
FT: Sr. Presidente, então o senhor é um patriota econômico? Ou o senhor é um nacionalista econômico?
PL: Eu sou um patriota, um patriota econômico. Eu gosto disso, desse termo. É, gosto disso. Ele me agrada. Você tem que pensar no futuro do país. Minério de ferro e petróleo são materiais que se esgotam, então, se não houver cuidado, logo você esgota o fornecimento e fica órfão. Então, o que é preciso fazer? Temos que aproveitar este momento e construir uma base industrial mais sólida e profunda no Brasil. Não estamos cometendo nenhum pecado. Queremos ser um país mais industrializado.
FT: Não é um pecado, mas as pessoas querem entender que forma de Estado existirá no futuro. Qual o tamanho do papel do Estado na determinação do futuro da economia do Brasil?
PL: A minha visão de Estado é que essa discussão sobre ele… Em minha opinião, a discussão comum sobre o papel do Estado foi uma consequência da crise global. Por muito tempo, em todo o mundo, até mesmo no Brasil, as pessoas diziam que o Estado tinha falhado e os mercados tomariam conta de tudo. E no Brasil, você sabe, eles achavam que o mercado deveria ser responsável até pela educação, o que é uma idéia absurda.
Então, antes de mais nada, e quero deixar isso claro, eu sou contra o Estado gerenciar a economia. Sou contra essa idéia. O Estado tem que ser forte, mas também um catalisador do desenvolvimento, uma entidade que promove o desenvolvimento a nível regional em nosso país, e o Estado, ao mesmo tempo, deve supervisionar as boas práticas econômicas e políticas. E podemos dar um exemplo. Por que o sistema financeiro no Brasil não quebrou com a crise? Porque ele é controlado com rigor.
FT: Porque vocês não têm muitos loiros de olhos azuis.
PL: É importante esclarecer isso, porque quando eu falei sobre os loiros de olhos azuis, quando a crise surgiu, eu estava reagindo aos comentários das pessoas que colocaram a culpa da crise nos migrantes e imigrantes. As pessoas pobres na África e ao redor do mundo vão ter que pagar pela crise, e não foram eles que a causaram. Então foi por isso que eu disse que essa crise não é uma crise dos pobres; ela não está vindo dos pobres, dos latino-americanos ou dos africanos. Esta crise está vindo dos ricos com olhos azuis. E eu disse isso quando estava com Gordon Brown no Palácio da Alvorada.
Sabe o que eu fiz no Brasil há dois meses? Legalizei todas as pessoas que estavam sem documentação no Brasil; pessoas sem documentos no Brasil, todas elas, para dar uma demonstração clara aos países ricos que não temos que perseguir os pobres por conta de uma crise econômica, e que não são eles que têm de levar a culpa por ela.
Agora, por favor, preste atenção. Você consegue imaginar todos os países ricos gastando 10% do que gastam na crise mundial para salvar o sistema financeiro em uma política de ajuda aos países mais pobres do mundo? Os países ricos dizem que não são capazes de financiar um auxílio para combater a pobreza nos países pobres. Mas para salvar os seus próprios bancos, eles encontram trilhões e trilhões. Se eles dessem parte disso aos países pobres, o mundo seria um lugar melhor. O dinheiro que eles não tinham para ajudar os países pobres apareceu, de repente. Trilhões e trilhões de dólares apareceram para salvar um sistema financeiro que foi atingido de maneira irresponsável.
Se os países ricos dessem aos países pobres parte do que gastaram salvando bancos, viveríamos em um mundo melhor.
Portanto, acredito que isso deve servir de aviso para nós. O Estado não é capaz de controlar tudo ou de intrometer-se em todos os assuntos, porém não se pode mantê-lo fora de tudo, como era nos anos 1980 e 1990.
FT: Presidente, me perdoe pela piada, mas gostaria de citar algo que o senhor disse em relação a questões internacionais, algo que achei maravilhoso. O senhor disse, quando começou como sindicalista, que se houvesse algum problema no Brasil, que o senhor culparia o governo. E então o senhor se tornou um líder sindical e, se havia um problema, o senhor culpava o governo. E quando o senhor estava concorrendo à presidência como um candidato da oposição, se havia algum problema, o senhor culpava o governo. Mas então, quando o senhor se tornou Presidente do Brasil, quando houve algum problema em seu país, o senhor culpou os EUA.
PL: Não, não vou para o inferno por causa desse pecado. Nunca transferi minha responsabilidade para os outros. Quando eu era líder sindical, eu colocava menos culpa no governo porque eu era líder dos metalúrgicos. Isso não tinha nada a ver diretamente com o governo, era diretamente com a classe empresarial. Quando eu estava lutando contra o governo, era porque eles não forneciam informações suficientes sobre as taxas de inflação. Eles ocultavam essas informações ou mentiam a respeito. Ou quando o governo proibia os trabalhadores de se reunirem ou de chegar a um acordo. Eles intervinham na mesa de negociações. Mas a minha luta naqueles tempos era contra os empregadores, não contra o governo.
É verdade, sim, que todo mundo que está na oposição coloca a culpa no governo. Isso é verdade. Fiz isso também. Meu partido fez isso também. Mas, por favor, eu nunca coloquei a culpa no capitalismo ianque, nem mesmo nos países ricos, porque a culpa pelo Brasil ser o que é, essa culpa é da elite brasileira, a elite econômica e política. São eles que têm de ser culpados. Eles não tinham uma mentalidade sobre questões sociais. Não pensavam nesse país como um todo, e foram subordinados e subservientes aos interesses dos outros durante séculos.
E eu tenho dito a diversos líderes políticos da América Latina: parem de colocar a culpa nos outros. Olhem para dentro do seu país; veja o que acontece dentro do seu país. O que acontece na classe política no seu país, olhe para eles. Qual a situação do setor comercial no seu país? É muito fácil transferir todas as suas responsabilidades aos outros, colocar a culpa nos outros.
FT: E o senhor mantém boas relações com outros países da América Latina que têm políticas diferentes das suas, idéias diferentes das suas.
PL: Bem, eu carrego comigo uma lição que aprendi. Penso quando o Presidente Nixon decidiu, em 1973, fazer da China um parceiro comercial preferencial. Acredito na coexistência com a diversidade. Não temos o direito de achar que os outros devem pensar como nós. Temos de trabalhar muito, e a democracia permite que você tenha relações pacíficas com diferentes países.
Veja como isso é extraordinário. Temos ótimas relações com a Colômbia e o Peru, temos ótimas relações com a Venezuela e a Bolívia. Por que eu faço isso? Porque, para mim, as diferenças entre nós são geralmente históricas. Ainda temos muitos problemas que herdamos do século XIX na América Latina: fronteiras, questões de fronteiras terrestres, questões marítimas.
Então qual é o papel de um país que é a maior economia, que tem a maior população e que tem muito mais tecnologia? Que papel o Brasil deve desempenhar? É o de não estabelecer uma política econômica em comparação com outros países. Ao contrário, é preciso estabelecer uma relação democrática, para que as pessoas vejam que não estamos interferindo ou nos intrometendo nas políticas domésticas sob sua soberania, na sua política soberana. Não se pode empurrar as pessoas para o canto. É muito importante entender isso… Sempre digo que o Brasil não deve trabalhar para uma hegemonia, mas para a formação de parcerias, porque durante o século XX, ou durante dois terços do século XX, a política de Estado dos EUA era no sentido de convencer os países da América do Sul de que o maior império era o Brasil.
Veja que paradoxo. Os empresários bolivianos tinham medo dos empresários brasileiros, mas não dos empresários americanos. Os empresários mexicanos tinham medo dos empresários brasileiros, mas não dos empresários americanos. O Chávez foi instrutor em uma academia militar – ele conta isso publicamente – durante as aulas, ele dizia que o militar venezuelano devia estar muito alerta contra o império brasileiro. Na política você só aprende a teoria de Maquiavel: dividir para conquistar. No Brasil, sob o meu governo, começamos a reconstruir a confiança na América do Sul, porque você não pode desenvolver a política sem confiança. E, graças a Deus, estamos conseguindo fazer isso.
FT: O BRIC é o conjunto de quatro países com interesses próprios e divergentes. O senhor acha que é um grupo significativo?
PL: Sim, é. O maior exemplo que eu posso dar é o da União Européia. Há 30 anos, parecia impossível imaginar que a União Européia viria à tona como veio. A França foi bombardeada pela Alemanha por quantos anos? De repente, todos esses países estão juntos, e agora decidiram eleger um Presidente da União Européia e um Ministro de Relações Exteriores. Isso é algo fantástico. Quem imaginaria que a Alemanha elegeria uma mulher da Alemanha Oriental para chanceler do país?
Então, são três coisas positivas que temos que trabalhar. É como quando você tem uma nova namorada. Se você só olhar para os defeitos e falhas dela, não vai chegar a lugar nenhum. Mas se olhar pelo lado positivo, pode acabar se casando com ela. Na política, temos que saber as divergências que existem no grupo do BRIC, e colocá-las de lado. Colocar a divergência de lado e começar a trabalhar nos pontos que podemos construir juntos, e é desse modo que vamos construir uma aliança forte entre os BRICs.
Não é pedir demais que alguém faça concessões em relação àquilo em que acredita. Queremos desenvolver novas coisas que possam ser desejadas por todos. Deixe-me dar um exemplo.
Sugeri, na última reunião dos BRICs, a primeira que ocorreu em Ecaterimburgo, Rússia, que deveríamos começar a negociar em nossas próprias moedas. Não precisamos do dólar. Podemos negociar com as nossas próprias moedas nacionais. Isso ajudaria, sobretudo, todas as empresas pequenas e médias a ter acesso às nossas moedas nacionais, e os bancos centrais forneceriam a garantia. Qual o problema? Não há nenhum problema. É só uma questão cultural, porque estamos acostumados ao dólar, mas isso pode mudar. E essa é uma mudança extraordinária para aqueles países que têm que comprar dólares. Agora, durante a crise, tivemos que colocar dinheiro das nossas reservas para dar garantias aos nossos exportadores, devido à brusca redução do crédito.
FT: Ninguém imaginaria … O senhor estava até emprestando dinheiro para o FMI. Há uma ironia histórica.
PL: A ironia foi quando eu chamei o Sr. De Rato e disse que não queria o dinheiro do FMI. Ele disse: não, precisamos emprestar dinheiro para o Brasil. O Brasil precisa pedir empréstimo. O Brasil deve manter os seus empréstimos com o FMI. É muito importante que eu mostre que o Brasil… Eu disse: não, não quero seu dinheiro. E ele ficou muito chateado quando recebeu de volta os US$ 16 bilhões que a gente tinha pedido emprestado. Além disso, ainda trabalho com a idéia de que vamos chegar ao fim do meu mandato com uma taxa de inflação de 4%. Há pouco tempo, eu sonhava em acumular US$ 100 bilhões de dólares em reservas no exterior. Em breve teremos US$300 bilhões.
FT: Vamos falar sobre Copenhague. O Brasil está em uma posição incomum. Tem uma matriz de energia limpa e pode cortar suas emissões de CO2 reduzindo o desmatamento. Mas isso é muito difícil para outros países emergentes? O que o Brasil pode oferecer em termos de liderança?
PL: O Brasil irá com muito cuidado e com muita responsabilidade a Copenhague. Primeiro, eu já me comprometi em setembro do ano passado, na ONU, que nós estabeleceríamos um objetivo, uma meta para reduzir o desmatamento em 80% até 2020. E o Brasil tem a intenção de fazer mais. Primeiro, porque 85% da nossa energia elétrica é não-poluente. E do total da nossa matriz energética, 47% provém de fontes limpas. Nenhum outro país tem energia tão limpa. O Reino Unido tem só 2% de energia limpa.
Agora, o Brasil compreende a realidade de cada país, e não vai fazer um discurso simples para fazer exigências aos outros. Vamos mostrar em Copenhague qual é a meta para o Brasil e que não queremos subordinar os outros países a adotarem a meta brasileira ou o objetivo brasileiro.
As metas do Brasil são os objetivos do Brasil, mas vamos trabalhar de maneira que possamos produzir um acordo que seja possível para outros países.
Acredito que já haja algo importante acontecendo. Todo mundo entende que todos temos que fazer algo. E acredito que, com todo mundo fazendo um pouquinho da sua parte, podemos evitar a morte deste planeta. Tivemos um aumento de dois graus na temperatura nos últimos 30 anos. Estamos tentando trabalhar com a idéia, junto com outros países, e, com certeza, o meu encontro com o Primeiro-Ministro Gordon Brown hoje à noite tratará sobre questões ambientais. Nós já conversamos com os EUA e a França, e também com a Alemanha. Em 26 de novembro, terei uma reunião com os países amazônicos em Manaus, capital do Amazonas. Nós já temos um zoneamento agroecológico da cana de açúcar para a floresta tropical, e agora estamos fazendo uma pesquisa sobre como recuperar as terras degradadas no Brasil, e estamos fortalecendo a nossa política de biodiesel. Acabamos de adotar para 1º de janeiro do próximo ano o diesel B5. Teremos, obrigatoriamente, 5% de biodiesel na produção de óleo diesel.
FT: O que o senhor pedirá ao Sr. Gordon Brown?
PL: O Brasil não está pedindo nada.
FT: E o que o Sr. Gordon Brown irá pedir ao Brasil?
PL: O Reino Unido sempre foi, e continuará sendo, um ator global. Acredito que o Reino Unido deve trabalhar com a idéia de a Europa avançar mais um pouco em termos de incluir o biodiesel no óleo diesel e, também, em termos de redução do aquecimento global. Deve haver um fundo para financiar os países mais pobres. Isso irá desenvolver um trabalho extraordinário de seqüestro de carbono.
FT: Isso seria como o Fundo para a Amazônia?
PL: Poderia ser algo semelhante ao Fundo para a Amazônia. Iremos para a reunião de cabeça aberta, para que possam haver outras boas ofertas a caminho. Acho que agora não é a hora de radicalizar. O senso comum deve prevalecer. Se quiséssemos fazer um discurso ideológico, um discurso simples, conseguiríamos alguns aplausos, mas sem nenhum resultado. E agora não é a hora de colocar a culpa nesse ou naquele. Agora é a hora de encontrar uma saída.
FT: Sr. Presidente, muito obrigado.