Reagindo à Crise Mundial 16/11/2009
A culpa não é da China
Há uma corrente de economistas que atribui a crise financeira atual ao desequilíbrio crescente, nos últimos anos, entre o superávit comercial chinês e o déficit corrente norte-americano. Nunca consegui entender a lógica subjacente a esse raciocínio. Um desequilíbrio requer duas forças atuantes contraditórias entre si – por exemplo, um déficit fiscal continuado sem contrapartida de aumento de produção. Não é o caso em pauta. As duas forças que seriam contraditórias, o superávit chinês e o déficit norte-americano, são de fato auto-reguladoras.
O processo deve ser analisado a partir de seu efeito sobre o funcionamento global do capitalismo na relação não só desses dois países entre si, mas deles com o resto do mundo. O superávit comercial chinês gera um ativo em dólar de seus bancos contra o Estado norte-americano; esse ativo é convertido em reservas e, como tal, se transforma num patrimônio em títulos, preferencialmente títulos do governo dos EUA, porque nominados na moeda internacional. Assim, os recursos correspondentes saem do circuito da renda corrente e entra para o circuito patrimonial.
O caminho específico dessa conversão passa longe da crise financeira. Quando uma empresa chinesa vende a uma rede comercial norte-americana, esta recebe um crédito de seis meses, no máximo de um ano. A realização das vendas no mercado varejista se realiza em geral nesse tempo, de forma que não há débito colateralizado, “credit default swap” ou qualquer outro tipo de derivativos criativos para mascarar operações insolventes. Os pagamentos são feitos e vão para as reservas chinesas. Viram ativos financeiros. A contrapartida são os ativos físicos nos lares americanos (e uma eventual carga no cartão de crédito).
Na essência, o superávit chinês é uma transferência de renda real para os EUA em troca de papel pintado. Casualmente, existe uma declaração implícita do Estado norte-americano de que esse papel vale alguma coisa. Isso, contudo, não gera desequilíbrio financeiro. Desequilíbrio financeiro é quando a renda financeira, num processo que os especialistas chamam de “financeirização”, supera sistematicamente a renda que o setor produtivo é capaz de gerar. Isso não acontece na esfera do comércio. Acontece na relação dos bancos com o setor produtivo.
A estratégia mercantilista chinesa, que foi em algum momento a estratégia de desenvolvimento alemã e a estratégia japonesa, não pode ser culpada pela crise mundial. Se os EUA, por algum expediente, tivessem deixado de comprar da China, equilibrando sua balança corrente, os chineses não teriam ficado parados: iriam procurar outros mercados com o mesmo apetite com que conquistaram um bom pedaço do mercado norte-americano. Realizariam superávits com esses mercados e, naturalmente, aplicariam as correspondentes reservas em títulos do governo dos EUA, dono da moeda internacional.
Se os EUA, nessa hipótese, por algum caminho estivessem reduzindo também o seu déficit fiscal, os chineses só encontrariam títulos públicos americanos no mercado secundário. Seus preços se elevariam e as taxas de juros tenderiam a zero. Nessa situação, uma queda de demanda agregada associada a uma crise financeira, oriunda da especulação em outros mercados – algo que de fato ocorreu -, teria efeitos ainda mais devastadores, em especial se fosse mantida uma política de orçamento fiscal equilibrado, como ainda insistem os conservadores e os neoliberais.
O superávit comercial chinês só poderia ser um fator de desequilíbrio na economia global se fosse utilizado para especulação financeira. Não é o caso. O déficit corrente americano só seria um fator de desequilíbrio se correspondesse a débitos insolventes. Também não é o caso. Não foram compradores de produtos chineses que declararam insolvência nos EUA. Foram os especuladores compulsórios no mercado imobiliário, os usuários de cartão de crédito (aí é possível que tenha havido compras de produtos chineses), os estudantes, compradores de automóveis,etc.
É claro que o modelo chinês, que tem sido bom para a China e foi bom para os EUA, não pode ser reproduzido em escala global. Evidentemente, todos os países não podem ser superavitários no comércio internacional simultaneamente. No passado, o mercantilismo foi motivo de guerras e de injustiças sociais; ao final das contas, não foram os campeões do mercantilismo, Espanha e Portugal, que se desenvolveram pela acumulação de ouro, mas a Inglaterra e a Alemanha, que nem minas tinham em seus territórios e suas colônias.
Quando, duas décadas atrás, um especialista chinês me expôs a estratégia mercantilista da China, reagi com extremo ceticismo. Conhecia a estratégia mercantilista industrialista da Alemanha e do Japão, mas duvidava de um impulso industrial similar num país tão populoso e tão atrasado quanto a China. Na verdade, subestimei a articulação que viria a acontecer entre as corporações industriais dos EUA e a disciplinada e numerosa mão de obra chinesa, sob flexível planejamento estatal e um vigoroso sistema bancário público.
Entretanto, há um desequilíbrio de fundo – este, sim, real -, que ronda qualquer país superavitário: a articulação entre reservas e fluxos financeiros externos e a política monetária interna. Isso, a longo prazo, pode ser um perturbador do desenvolvimento, sobretudo onde não haja controle de capitais. E será mais perturbador ainda dependendo da natureza da política monetária: uma, de controle quantitativo da moeda; outra, de controle indireto do crédito, pela política de taxa básica de juros.
O controle quantitativo é o equivalente moderno do currency board: expande-se ou contrai-se a moeda de acordo com a expansão ou contração das reservas internacionais. Isso, obviamente, corresponde a uma alienação da soberania nacional em relação à política monetária – algo que alguns notáveis economistas neoliberais já defenderam para o Brasil. O controle do crédito pela política de juros busca estabelecer uma taxa de juros compatível com as necessidades de crescimento da economia e do controle da inflação.
A China tem controle de capitais e um sistema bancário estatal e centralizado. Pode programar soberanamente sua política monetária e de crédito, concomitantemente com a acumulação indefinida de reservas internacionais. Para que essas reservas? É uma incógnita que só os estrategistas chineses podem explicar. Talvez temendo, no futuro, uma situação em que as demandas internas de uma população de 1,3 bilhão se tornem tão grandes que vão exigir a total reconversão do sistema produtivo para o mercado interno, invertendo-se a situação externa.
Num mundo ideal, não haveria países deficitários ou superavitários permanentes no comércio mundial. Seria o mundo imaginado por Keynes, com o seu bancor, a moeda mundial que realizaria o clearing das posições comerciais e sinalizaria medidas corretivas tanto para os deficitários quanto para os superavitários. Provavelmente estamos ainda longe desse mundo, mas não dos crescentes questionamentos que a era da informação vem fazendo sobre temas complexos, entre os quais o da moeda. Afinal, se você pede empréstimo em dólar para gastar em real, e se o governo, para lhe dar o real, lança em contrapartida um título público para enxugar o mercado, por que o governo não lhe dá diretamente o empréstimo, sem lhe obrigar a fazer dívida em dólar?