Artes e Cidadania 09/11/2009
A Idade do sal
Há riquezas que causam ruína. Esta sentença aparentemente contraditória assombra a definição dos marcos regulatórios brasileiros da exploração petrolífera em regiões pré-sal. Sobretudo, aqueles que olham para o caso da África Sub-Saariana, onde as descobertas de novas reservas de óleo provocam guerras, colapsos institucionais, pressões inflacionárias, concentração de renda, desemprego, mais pobreza e mais miséria. No entanto, proponho aqui uma simples reflexão a partir do sal, tendo em vista a idéia de conectar Economia e Educação.
Quando criança, costumava ver nas férias escolares logo após os laranjais do trecho Itaboraí-Araruama (Estado do Rio de Janeiro), para quem sai da cidade do Rio no sentido da Região dos Lagos, um sistema antigo de salinas, começado outrora com mão-de-obra escrava em fazendas que dispunham principalmente do clima para a obtenção de uma das riquezas naturais fluminense. Se o Sol estava forte, reparava que os trabalhadores majoritariamente negros formavam ao longo das perspectivas montinhos brancos. Curiosa observação… No final do dia, a pouca luminosidade sobre as piscinas feitas de madeira ante um céu claro projetava impressões em azul, amarelo, violeta e rosa. Entre os cata-ventos, as memórias da infância.
Hoje, assim como os laranjais, a paisagem do sal naquela região é praticamente inexpressiva. Um quadro em tons de cinza. Ou melhor, uma cena marcada pela degradação social, pela urbanização irregular, pela pobreza da população, pela falta de oportunidades etc. Existem atividades salineiras, uma produção artesanal, ecológica e economicamente instáveis. O pós-sal mostra uma extrema salgadura. Paralelos com o petróleo? Talvez… Cata-ventos há os quixotescos. Acho que as riquezas abandonaram à ruína.
Pensei: “bem, as salinas em volta da Lagoa de Araruama são muito mais bonitas que as italianas…”
Vi outro dia numa propaganda televisiva, salinas do Império Romano serem concebidas como pontos turísticos, em ambientes verdadeiramente sustentáveis e que ainda poderiam perfeitamente produzir sal. Pensei: “bem, as salinas em volta da Lagoa de Araruama são muito mais bonitas que as italianas. Como vislumbrar então riquezas a partir da ruína?”. Parques municipais de salinas ecologicamente sustentáveis seriam excelentes pontos turísticos na Região dos Lagos. Contudo, isto ainda é pouco. Outras dimensões para o sal são factíveis, realizáveis. Por que não compreender o sal como expressão estética? Quem preferir, como Arte, na produção econômica e também na educação, reorganizando o espaço urbano, oferecendo empregos, além de promover a preservação ambiental. O link cultural já acontece em algumas cidades. Em Arraial do Cabo, por exemplo, uma festa religiosa enfeita as ruas com desenhos feitos de sal. As salinas deixadas pela falida Álcalis são pitorescas e por isso cobiçadas pela especulação imobiliária. Assumir a complexidade das dinâmicas sociais e econômicas e aí, pois interagí-las, requer percebê-las.
Tais lucubrações se fariam igualmente a partir do peixe. A atividade pesqueira é também de suma importância para a Região dos Lagos fluminense. Em outra parte, eu falaria da borracha, do couro, do pequi, da uva… Fato é que as prefeituras das cidades em questão serão beneficiadas pelos recursos oriundos dos royalties e dos fundos gerados pela exploração do petróleo pré-sal. Esta é a oportunidade para reestruturar a sociedade pós-sal sobre novas bases, com espaços urbanos planejados por referenciais humanos e equitativos, respeitando o meio-ambiente, então estimulados pela educação estética. Seja na aplicação do Protocolo ‘Berço a Berço’ (Cradle to Cradle Protocol), seja na constituição de outra idéia de sociabilidade.