Políticas Educacionais 06/11/2009
Sobre as sombras
Nas gramas, nos bueiros, nas fossas e nas ruínas das grandes cidades sobrevive uma espécie que os cientistas parecem não querer descobrir. Os abandonados. Menores carentes, filhos (ou seriam vítimas?) de outrora também abandonados pais, que reproduziram-se a esmo, seguindo o sabor da embriaguez, ociosidade e tudo o mais que lhes restou.
Alimentados pelo álcool, turbinados pelas drogas, desnutridos de oportunidades. Estas são o que muitos ousam chamar de “sementes do mal”. Catando latas, brincando em meio aos carros velozes, empunhando armas, ou adoecendo sem atenção. Uma herança maldita recebida pela sociedade brasileira, graças a séculos de políticas de exclusão. Vergonha para a qual a população virou seus rostos, tapou os narizes, fingiu não ouvir seus pedidos de ajuda.
Esta espécie sofre uma aparente rejeição pelo Estado. Não se pode afirmar que é um tratamento oficial, afinal há assistentes sociais, sociólogos e demais profissionais trabalhando em sua função. Estudando-os e tentando ampará-los.
Como quem não tem nada busca um mínimo de prazer, eles também amam. Proliferam-se, fazendo perdurar a saga da espécie. Diariamente a população carente cresce, num alarmante índice de adoecimento social.
O que fazer desta massa ociosa? Quais as medidas a serem tomadas diante do fato incontestável de que eles existem? Eles não são invisíveis!
De princípio, deve-se admitir sua existência (sim, muitos preferem não vê-los). Eles são especiais. Não se pode tratá-los da mesma forma que outras crianças e jovens educados da forma tradicional. Deve-se a eles uma atenção especial. Serviços assistenciais exclusivos. Quem sabe até mesmo leis que estimule sua inserção social. Novas políticas educacionais deverão ser formuladas para não se desperdiçar mais do que já se perdeu.
Não é fácil encontrar a solução definitiva para esta questão. Porém, se não for iniciado o devido tratamento a estes brasileiros, a herança maldita continuará a aumentar. O custo para a sociedade será maior a cada dia, assim como o sofrimento destes cidadãos.
Há perspectivas no horizonte. Entretanto, a experiência pregressa mostra que pode não significar muito. Trata-se da dos eventos esportivos que serão sediados no Brasil em alguns anos. Caso os governos decidam dar a devida atenção ao caso, alguma significativa melhora será percebida. Porém, se a política dos banhos de perfume persistirem (escondendo as sujeiras por baixo do tapete), estes brasileiros serão apenas transferidos para as regiões mais periféricas, mascarando um problema crônico.
Nos próximos anos será preciso torcer muito pelo Brasil. Torcer para que o país encare com firmeza seus problemas. Torcer para que não seja mais preciso ver crianças dormindo e degenerando-se nas ruas.
Este texto foi escrito com a colaboração de Hélio Correia.