Estamos diante de uma grande crise econômica mundial, que apesar de cada vez menos refletida e divulgada pela grande mídia, está longe de ter um ajuste profundo. Trata-se de desgastes econômicos que aprofundam uma série de outras crises, tais quais as sociais, políticas, de valores humanos, dentre outras.
Longe de ter a pretensão de discutir os “problemas da humanidade” em algumas linhas, defenderei uma proposta de geração de emprego, renda e melhorias sociais que avança sobre muitos problemas brasileiros, tendo como pano de fundo dois diagnósticos que julgo como centrais.
Estamos assentados sobre um mito que tem conduzido os rumos de nossas vidas. A idéia geral de que crescimento econômico é sinônimo de desenvolvimento[1]. Trata-se de uma relação não-mecânica, pois é essencial identificar como se dá o crescimento econômico num país. No Brasil, por exemplo, tem-se um crescimento econômico fundamentado, em grande medida, no modelo agroexportador, que envia produtos primários para o mundo e recebe divisas em troca. Um modelo incoerente com o desenvolvimento, pois gera crescimento através da expansão do latifúndio. Ou seja, gera crescimento através do ataque ao meio ambiente e da desagregação social, pois o “homem do campo” é expulso[2] da terra e levado às cidades, contribuindo em muitas situações para o aumento da desagregação urbana através da miséria, violência…
Outro problema central é a crise do Estado. Saímos da ditadura militar para uma democracia. Um avanço. Mas qual democracia? O termo democracia significa “poder do povo”, mas o que temos é uma plutocracia – o “poder do dinheiro”. O povo elege, mas não manda, pois os instrumentos de poder são quase que exclusivos dos detentores do poder de “representar”. E quem manda na maior parte dos “representantes” não é quem vota, mas quem paga suas imensas contas de campanha eleitoral, quem controla a grande mídia…
No Brasil vive-se a plutocracia (o poder do dinheiro).
Mas como enfrentar as diversas crises? Há muitos anos, setores da sociedade comprometidos com a transformação social vêm discutindo diversas iniciativas. Mudar os rumos da política econômica, a organização do Estado, o arranjo do setor produtivo etc. Discussões centrais, estruturantes, que têm fracassado no atual contexto brasileiro por não ter aderência na sociedade, não encontrar espaço na mídia nem unidade de ação nas forças políticas progressistas, dentre outros fatores.
Para avançar na mudança é essencial discutir um projeto que ataque os grandes problemas do povo. Uma proposta que unifique as forças progressistas e que atraia amplos setores da sociedade para seu debate. É neste contexto que defendo uma política de emprego garantido conduzida pelo Estado, que remunere trabalhadores e os qualifique – quando necessário –, direcionando o esforço produtivo destes para a regeneração das periferias, através de reformas de casas, construção de creches, escolas, postos de saúde etc. Iniciativa desta natureza contribuiu para a Argentina sair da crise de 2001, e contribui para o desenvolvimento de países com Índia e África do Sul.
Para avançar, é preciso atacar os grandes problemas do povo.
Existe uma formulação deste projeto para o Brasil que prevê que, com um investimento de aproximadamente 120 bilhões de reais durante 5 anos[3], poderíamos gerar oito milhões de empregos, pagando 7 salários mínimos/ano para cada trabalhador envolvido e investindo nas grandes necessidades de reestruturação das regiões periféricas. Um investimento modesto para um país que tem um orçamento de aproximadamente 500 bilhões, onde quase 200 bilhões são escoados para pagamento de juros e amortizações de dívidas. Um país que não mede recursos para ser palco de copa do mundo e olimpíadas.
Um projeto desta envergadura pode significar uma saída para a crise econômica, pois trata-se de um dinheiro injetado diretamente na economia, que repercute na ampliação dos empregos formais e numa cíclica favorável à dinâmica econômica. Trata-se de um ataque frontal à crise social, pois dá condições mais dignas de vida para camadas pobres e reflete numa redução dos conflitos sociais nas cidades (redução da violência, por exemplo).
Enfim, um projeto coerente com o verdadeiro sentido de desenvolvimento, mas que encontra resistências nos setores conservadores que controlam o poder e a mídia. A atual composição do Estado, como problematizada acima, é desfavorável à condução de iniciativas desta natureza.
No entanto, o nosso desafio começa a ganhar forma aqui. Os idealizadores deste portal e muitos de seus colaboradores defendem a materialização desta idéia. Inserir esse debate na sociedade é o nosso primeiro passo.
Referências:
[1] Utilizo o sentido de desenvolvimento numa acepção ampla que envolve zelo ambiental, progresso econômico, social, político, etc.
[2] Coloco expulsar não necessariamente no sentido literal. Mas pela força da expansão do latifúndio, o pequeno produtor por vezes não encontra outra possibilidade se não a de desfazer de sua terra e partir para cidade.
[3] A proposta é que se invista 0,5% do PIB num primeiro ano, 1% no segundo, 1,5% no terceiro, 1% no quarto e 0,5% no último, valores que se aproximam dos citados 120 bilhões.
