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A China, um grande país periférico, caminha com rapidez para ocupar uma posição central no sistema internacional. É um fato raro. Desde que o expansionismo europeu começou a formar o moderno sistema- mundo, há cerca de quinhentos anos, apenas duas nações nãoeuropéias – o Japão e os Estados Unidos – conseguiram alterar qualitativamente a sua posição, passando da periferia ao centro, ambas no século XIX. A estabilidade na hierarquia internacional é notável. Resistiu a todos os projetos de desenvolvimento implantados na periferia.

O deslocamento permanente da fronteira tecnológica tem sido um dos motivos pelos quais as posições relativas pouco se alteram. Os países centrais reafirmam as suas posições de comando justamente porque são capazes de recriá-las, liderando os processos de inovação. Como mostra a história do Brasil no século XX, os países retardatários não conseguem, simultaneamente, apoderar-se da base técnica que já está madura e acompanhar, em tempo real, a criação da base futura. Mesmo quando se desenvolvem, a defasagem em relação à vanguarda se recria dinamicamente.

Combinando estratégias múltiplas, a China parece constituir uma exceção. Hoje, por sua pujança, o complexo formado pelas economias do Leste da Ásia e pelos Estados Unidos move o mundo, e o futuro de todos depende da forma como essa relação evoluirá. Há interesses complementares. Nenhum dos dois pólos pode funcionar sem o outro. Os enormes déficits norte-americanos, tornados possíveis por um padrão monetário anômalo, são essenciais para impulsionar a industrialização chinesa. De outro lado, o desempenho das empresas multinacionais e a centralidade do dólar como moeda mundial – que formam a base econômica do poder americano – passaram a depender, em grande parte, da China.

Ao mesmo tempo, está em curso uma gigantesca disputa. Mantidas as atuais taxas de crescimento, o produto interno bruto da China ultrapassará o dos Estados Unidos em pouco mais de uma década, o que provocará mudanças geopolíticas de grande alcance. Os investimentos militares chineses poderão se equiparar aos investimentos norte-americanos. Ao reestruturar sua Marinha, para torná – la capaz de projetar força, e ao mostrar ao mundo as suas armas anti-satélites – duas áreas cruciais para a atual superioridade dos Estados Unidos –, a China deixou claro que não reconhece nenhum limite ao desenvolvimento de sua capacidade militar. É cuidadosa na arena internacional, mas não hesita em fortalecer o seu poder nacional. Sob esse ponto de vista, as tensões tendem a aumentar, ainda mais quando se leva em conta que ambas as economias (além de quase todas as outras economias relevantes, como Alemanha, Japão e Índia ) são fortemente deficitárias em recursos energéticos, que precisam ser buscados fora dos respectivos territórios nacionais.

Os Estados Unidos terão que fazer uma difícil escolha, rapidamente: ou tentarão deter o crescimento chinês, por motivos geopolíticos, ou conviverão com ele, por motivos econômicos. A China, por sua vez, não tem opção. O crescimento rápido é o fiador da estabilidade em uma nação, com mais de um bilhão de pessoas, que já se lançou na grande transformação de criar uma sociedade industrial, um caminho doloroso e complexo, que não admite interrupção ou retorno.

Da solução desse enigma dependerá a face do mundo na próxima década. Quando derrotaram a União Soviética, os Estados Unidos decidiram que agiriam preventivamente para não permitir que nenhum outro Estado obtivesse paridade estratégica com eles. Se forem fiéis à doutrina, uma grande medição de forças se aproxima, situada além da economia. Esse é o espectro que está por trás de boa parte das tensões no mundo atual.

Este artigo foi originalmente publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 8/03/2008.


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