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A realidade interpela a humanidade, mas, além disso, pode promovê-la. A cidade colonizou o campo e marcou profundamente a rota dos processos políticos no nível mundial. A maioria da humanidade é hoje urbana. Esta situação não pode ser entendida apenas como um fenômeno demográfico É, sobretudo, uma mudança substancial no universo político. Estabelece uma configuração espacial e social nova para a manifestação dos interesses de classe.

A humanidade, durante a maior parte de sua existência, esteve diretamente vinculada ao espaço rural como forma prioritária de reprodução de sua existência. A dimensão política da vida, nesse contexto, possuiu traços comunitários e coletivos, estabelecidos sobre pilares de legitimidade de caráter pessoal, patrimonial, religioso e cultural. Existiu um espaço coletivo e comunitário. Contudo, não um espaço público. Entendendo o mesmo como esfera política de manifestação de preferências de forma igualitária, sobretudo em relação ao gênero, geração e etnia.

A cidade nasce conjuntamente com a política, mesmo que ainda restrita do ponto de vista da participação e da cidadania. Ela ofereceu não apenas as condições territoriais, mas antes disso, as sociais, em especial a divisão social do trabalho, colaborando para a ampliação da manifestação da diversidade de interesses. O processo de expansão da cidadania ainda é um fenômeno em construção, que exige da humanidade a luta pela ampliação de espaços públicos e o controle dos bens essenciais para a vida e a dignidade de totalidade do universo social. Porém, os bens essenciais em um contexto urbano foram expandidos; Não é possível imaginar a existência sem acesso a transporte, a energia, a água potável, a saneamento, a cultura, a creches, a habitação, a seguridade social, somente para citar as demandas mais debatidas. Portanto são demandas de uma sociedade moderna e urbana, que inclusive exerce influência na parcela rural da população desejosa em elevar seus padrões de vida para níveis urbanos.

O neoliberalismo exerceu uma pressão regressiva na rota de ampliação da cidadania, uma vez que radicalizou a lógica do mercado sobre os bens públicos, privatizando aqueles setores essenciais para o oferecimento de serviços públicos de primeira necessidade. A privatização da água, das empresas de energia, das empresas estatais de exploração de recursos estratégicos, o ataque à seguridade social e a precarização dos serviços públicos são os exemplos típicos. De fato, a cidade sempre foi também um espaço do mercado, contudo para que o mesmo pudesse se realizar foi necessária a manutenção do espaço de “não-mercado”, ou espaços não diretamente vinculados à lógica do capital. Espaços que, em um determinado nível de análise, pode-se identificar que lhe servia como auxiliar. É em meio a esta relação que a cidadania se fortaleceu e disputou a noção de democracia com participação popular. Geralmente aquecida pela luta por acesso aos bens públicos, criou uma sociedade civil que se caracteriza pela heterogeneidade de acepções, fundamental para a edificação de uma democracia.

A onda neoliberal coloniza em grande parte esta sociedade civil e irradia a lógica fundamentalista do mercado para o âmbito estatal, social e cultural. Onda esta que assolou a maioria dos países e promoveu reações de massas com grande intensidade a partir da segunda metade dos anos 90. Agora, mediante aos efeitos de uma crise financeira, ambiental e social promovida por esta concepção, é necessária a retomada na iniciativa dos movimentos sociais e organizações políticas vinculadas a uma concepção igualitária e democrática de sociabilidade.

Esta iniciativa deve dar conta de promover a disputa pelo controle público dos bens fundamentais para a vida humana, não apenas em relação às necessidades imediatas. Diante da dimensão crescente das crises em curso, cada vez mais soluções se tornam imediatas. Porém, algumas noções ganham status de consenso. Uma delas é que as soluções são mundiais e que a vida (e todas as demandas necessárias à sua promoção) não podem estar vinculadas à lógica do mercado.


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