Política Cambial 23/10/2009
Superando a crise financeira atual?
As securitizações esconderam riscos não regulamentados pelas autoridades competentes.
A internacionalização do sistema financeiro alterou a dinâmica econômica mundial. A desregulamentação dos mercados financeiros e o surgimento de inovações financeiras tem limitado a ação das políticas macroeconômicas domésticas. Outro efeito colateral foram as frequentes crises de balanço de pagamentos das economias emergentes, além das crises de liquidez e solvência, como na recente crise financeira internacional.
Este processo de globalização financeira, em que os mercados financeiros são integrados de tal forma a criar um “único” mercado mundial de dinheiro e crédito, acaba diante de um quadro em que inexistem regras monetário-financeiras e cambiais estabilizantes. Os instrumentos tradicionais de política macroeconômica tornam-se crescentemente insuficientes para conter os colapsos financeiros (e cambiais) em nível mundial, resultando em crises de demanda efetiva.
A crise financeira atual é, sobretudo, a crise da globalização financeira, entendida como uma certa tendência à criação de um mercado financeiro global e de intensificação no fluxo de capitais entre países. Esse processo remonta a crise do sistema de Bretton Woods e a formação do mercado de eurodólares, que contribuiu para a desregulamentação doméstica dos sistemas financeiros e a liberalização dos fluxos de capitais.
Como resultado do processo de desregulamentação financeira, observou-se um acirramento na concorrência entre instituições bancárias e uma consequente queda nas margens de intermediação financeira. Como resposta, houve uma tendência às conglomerações e um aumento na escala de operação, via fusões e aquisições. Diversas instituições passaram a explorar diferentes mercados, inclusive os de baixa renda. No mercado de títulos, desenvolveram-se mecanismos de securitização, estimulados pelo crescimento de investidores institucionais, em que firmas e bancos se financiaram “empacotando” rendas a receber. Em suma, uma vez que a securitização permitia a diluição de riscos no mercado, as instituições financeiras passaram a aumentar sua alavancagem, supondo que os mecanismos de auto-regulação do mercado seriam capazes de continuar avaliando corretamente os riscos inerentes às atividades financeiras.
A crise do subprime – mercado de financiamento imobiliário de maior risco – expressou todas as contradições deste processo. A necessidade de ampliação de escala levou as instituições a incorporarem segmentos de baixa renda em condições de “exploração financeira” que resultou em um processo de estrangulamento financeiro do tomador de crédito. No caso do subprime, as taxas de juros eram variáveis (baixas no início, elevando-se ao longo do tempo).
A securitização, que serviria para diluir riscos, na prática serviu para esconder riscos. Títulos lastreados em hipotecas foram emitidos por instituições financeiras de grande porte, gerando ativos classificados como grau de investimento por uma agência de rating. Tais ativos, como resultado da globalização financeira, passaram a ser comprados por investidores de diferentes nacionalidades. Criaram-se, assim, novos instrumentos financeiros que não foram devidamente regulamentados pelas autoridades.
Mecanismos de auto-regulação mostraram-se falhos devido ao caráter pró-cíclico da tomada de risco: projetos que eram considerados ruins na desaceleração passaram a ser visto como bons no boom cíclico.
Este artigo foi escrito em co-autoria com Luiz Fernando de Paula. Leia também a versão original em PDF.