É excepcional a oportunidade oferecida para o desenvolvimento do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos.
As Olimpíadas, contudo, não são uma panaceia para os problemas urbanos. Degradação ambiental, crescimento de favelas e violência urbana não se superam por mágica. Mas é justo esperar que os investimentos previstos e o sentimento de promoção da cidade possam estruturar uma recuperação consistente.
Há dois condicionantes, porém: 1) o adequado tratamento ambiental que venha a ser desenvolvido até lá, no sentido da sustentabilidade urbana; 2) a coerência entre a marca da cidade e o palco dos Jogos.
Por que isso pode preocupar?
Porque há uma questão urbanística importante a pesar: a ambigüidade quanto à região a ser desenvolvida prioritariamente. É a Cidade ou a Barra da Tijuca?
Entre os mais importantes legados projetados está a despoluição da baía de Guanabara, à beira da qual o Rio nasceu e cresceu. É fundamental para a reestruturação urbanística da metrópole.
Os Jogos de 2016 podem representar o papel que as obras de Pereira Passos desempenharam no início do século XX, quando a idéia de Cidade Maravilhosa foi constituída.
Um segundo legado poderá ser a revitalização do centro, a Cidade, para muitos cariocas. O centro do Rio é o seu lugar histórico. Dispõe da melhor acessibilidade e conexões metropolitanas. É o núcleo principal dos empregos. Seu processo de esvaziamento tem se exacerbado pelo abandono de edifícios e áreas antes ocupadas pelo governo federal.
Sofre também com o estímulo à ocupação da Barra, distante 40km. Com 200mil habitantes, 2% da população metropolitana, a Barra tem recebido investimentos públicos desproporcionalmente à sua participação demográfica.
Embora os Jogos Olímpicos estejam projetados para ocorrerem em quatro áreas ( Zona Sul, Centro, Zona Norte e Barra da Tijuca), é na Barra que se prevê construir a Vila Olímpica.
Algumas modalidades esportivas têm exigências de lugar. É o caso de esportes náuticos na Lagoa Rodrigo de Freitas e em Copacabana (Zona Sul). Ou pelo aproveitamento de equipamentos existentes, como o estádio João Havelange (zona Norte) e o Maracanã (Centro expandido). Poderíamos dizer que são especificidades locacionais impositivas.
Já os equipamentos projetados para a Barra, como a Vila Olímpica, não tem especificidade de localização. Ao contrário, é o bairro que demanda a construção de infra-estrutura para ajustar-se aos Jogos de 2016.
A escolha da Barra foi justificada pela disponibilidade de grandes áreas livres, de propriedade privada ou pública, mas de fácil apropriação. Em que pese a baixíssima densidade populacional, que torna proibitivo investir em transporte de massa, essa decisão, adotada no momento da submissão da proposta, seria a mais adequada já que não se vislumbrava outra região com áreas passíveis de aproveitamento.
Mas, de lá para cá, as coisas mudaram.
O novo governo municipal anunciou como prioritário o desenvolvimento da região portuária, no centro da metrópole. Nela há grandes áreas disponíveis, de propriedade pública, para cujo aproveitamento já houve acordo entre o presidente Lula, o governador Cabral e o prefeito Paes. A sinergia que não havia antes, entre as decisões federadas, hoje é inconteste.
Tal disponibilidade tem potencial construtivo muito superior ao necessário para a Vila Olímpica e demais equipamentos projetados. De frente para a baía recuperada, a Vila Olímpica poderá servir de fomento à moradia no Centro, a sinalizar um novo século de desenvolvimento
Por certo se constituirá como o coração dos Jogos de 2016. É justo que assim seja, pois disporá da melhor infra-estrutura de transporte, com duas linhas de metrô, mais as três novas linhas que poderão resultar da transformação dos trens suburbanos em metrô, promovendo a integração por transporte de massa de 70% da população de toda a Região Metropolitana. O fortalecimento da Zona Norte e Baixada poderá ser outro legado olímpico de valor incomensurável para o futuro do Rio.
Assim, o palco dos acontecimentos olímpicos estará indissociado da imagem ambiental do Rio, consagrada mundialmente. Os Jogos de 2016 podem representar o papel que as obras de Pereira Passos desempenharam no início do século XX, quando a idéia de Cidade Maravilhosa foi constituída –e que, hoje, pode ser recuperada.
Este artigo foi originalmente publicado na Folha de São Paulo, no dia 04 de outubro de 2009