Na história de ocupação da espécie humana na superfície da Terra, em todos os tempos, relativamente poucos são os espaços de adequada conservação da natureza, o que tem gerado crescentes supressões da biodiversidade e impactos ambientais generalizados, afetando a qualidade da própria sobrevivência humana.
Por outro lado, o homem racional pode reconhecer o passado, ser pro ativo no presente e capaz de planejar ações para o futuro. A espécie humana é privilegiada dentro do conjunto da biodiversidade global podendo mudar seu comportamento destrutivo para planejar e agir de forma mais harmoniosa e responsável.
Essa responsabilidade nos condiciona o dever de cuidarmos da natureza desse planeta, que é nosso espaço de sobrevivência e herança para futuras gerações.
A compreensão dos limites de uso dos recursos naturais, bióticos ou abióticos, não é tão simples, pois a natureza é múltipla e complexa, caracterizando-se como: exuberante e delicada, abundante e finita, pesquisada e desconhecida, independente e desprotegida, explorada e destruída.
Em fim entre extremos vivemos utilizando os recursos naturais que se transformam em bens e serviços de nossa prática social de mercado e/ou sobrevivências grupais.
O cerne do problema é que essa sociedade mercantil, com população crescente, cria demandas insustentáveis para a própria sobrevivência humana dentro da natureza limitada. Isto significa que sem saber utilizar a natureza, estamos nos destruindo indiretamente.
Estudar, analisar e interpretar todos esses fatores é o desafio de nossa sobrevivência. O gerenciamento integrado dos conhecimentos sobre a dinâmica do ciclo de vida dos recursos, no espaço e no tempo, viabiliza o melhor planejamento do consumo e cria os meios de recuperação e reciclagens apropriadas.
A sociedade mercantil, com população crescente, cria demandas insustentáveis para a própria sobrevivência humana dentro da natureza limitada.
Nessa conjuntura o Brasil colonial, monárquico e republicano é um país jovem que é responsável por parte ponderável do espaço global, onde deve ter uma história original a ser construída para se perpetuar na formulação de um novo padrão de utilização da natureza, objetivando um processo civilizatório sustentável.
No espaço brasileiro a natureza explorada para atender a demandas internacionais e locais de matérias primas, que persistem ainda em alguns casos com estoques exuberantes de recursos abióticos e bióticos, encontra-se em outras situações com estoques escassos e ecossistemas degradados.
Por outro lado a Biodiversidade, ainda pouco conhecida, é cada vez mais valorada pelo conhecimento e recursos financeiros, pois representa potencial de novas descobertas. Entretanto pouco poderá ser recuperado se os ambientes naturais forem destruídos, sendo necessária uma ação gerencial estruturada.
O macro-bioma do Cerrado, além da Amazônia, destaca-se como um dos maiores conjuntos de reservas de megadiversidade e uso agropecuário do Planeta (como mostra a figura abaixo), sendo o segundo bioma em área no território continental brasileiro. Seus diversos ambientes e múltiplos bio-ecossistemas estão integrados a frágeis e também exuberantes recursos hidro-geológicos, que têm possíveis reflexos para o clima mundial, mas principalmente sobre alterações metereológicas diretas sobre o território brasileiro, pois se delimita com quase todos os outros biomas brasileiros.
Sua população multiétinica tem se conscientizado da necessidade de viver de forma sustentável dos recursos, sendo que brasileiros de todas as regiões e instituições científicas internacionais têm estudado e colaborado com o desenvolvimento de projetos de diagnóstico sobre a região.
Embora, também se reconheça a existência de ações destrutivas da natureza do Cerrado, às vezes amplificadas pela mídia, comparativamente com outras regiões do mundo e do país, a situação ainda tem boas perspectivas na conservação da natureza e civilidade na colonização, principalmente se efetivarmos o que consideramos um Sistema de Gerenciamentos Ecológico-Econômico nas escalas Estaduais e Municipais.
As bases dos diagnósticos para esse Gerenciamento são as metodologias e os resultados do Consórcio Zoneamento Ecológico-Econômico do Brasil (Consórcio ZEE-BRASIL*), que representam também um exemplo notável do grande sucesso de integração de instituições públicas e privadas que atuam discutindo e sugerindo alternativas de desenvolvimento sustentável, buscando compatibilizar as melhores propostas de uso dos recursos naturais, tecnologias de manejo e integração com as comunidades regionais.
A Biodiversidade, ainda pouco conhecida, é cada vez mais valorada pelo conhecimento e recursos financeiros, pois representa potencial de novas descobertas.
Todos esses diagnósticos, com focos conservacionistas ou empreendedores, reconhecem a necessidade de ações operacionais para a sustentabilidade dos ambientes e dos recursos naturais explotados, devendo haver maior divulgação de metodologias integradas inter-setoriais, estaduais, municipais, além de facilitar ações compartilhadas e de capacitação com empresas privadas e a sociedade civil. Esses diagnósticos e metodologias de sinergia integram o que denominamos o Gerenciamento Ecológico-Econômico, que seria o complemento operacional do Zoneamento Ecológico-Econômico – ZEE.
Portanto é importante conhecermos alguns aspectos básicos do ZEE para projetarmos o gerenciamento.
As origens e as possibilidades do ZEE foram bem definidas por Del Prette & Matteo (2006), que considera fundamental que o ZEE se torne uma rotina nos planejamentos de usos dos espaços, subsidiando o monitoramento, o controle, a priorização de programas e projetos, os planos de gestão, além de sistematizar informações geo-referenciadas (SIGs) integradas legislações, normas de condutas de financiamento e políticas sociais, buscando uma cadeia de sustentabilidade local, regional e nacional.
Quanto ao fortalecimento estruturado do ZEE, a doutora Adma Hamam de Figueiredo (2006), coordenadora de geografia do IBGE, tem uma excelente proposta de atualização da legislação sobre o ZEE, que discute: a ação normativa do estado contemporâneo, histórico da normatização do zoneamento, escalas de competência administrativas e proposta de normatização operacional.
O ZEE é um instrumento capaz de prever e promover a compatibilização possível entre a implementação de políticas ambientais de conservação da natureza e o desenvolvimento sustentável planejado de atividades econômicas e sociais
Em síntese fica claro que o ZEE é um instrumento capaz de prever e promover a compatibilização possível entre a implementação de políticas ambientais de conservação da natureza e o desenvolvimento sustentável planejado de atividades econômicas e sociais, tais como: agropecuária, exploração mineral, ocupações urbanas e industriais, e complexas de logísticas energéticas e de transporte, havendo uma contabilidade dos impactos ambientais e benefícios nas formas de apropriação e uso dos recursos naturais.
Nesse sentido a lógica de implementação do “Gerenciamento Ecológico-Econômico do Cerrado” poderá acelerar um processo de harmonia entre a conservação da natureza e as melhores alternativas reais de desenvolvimento sustentável com menores impactos sobre a região.
Evidentemente, essas poucas linhas, não vão resolver a orientação das várias faces da necessária harmonia entre conservação e desenvolvimento no Cerrado, mas fica aqui uma sugestão de se realizar um seminário específico com o tema “Gerenciamento Ecológico-Econômico do Cerrado Brasileiro”, para o que será fundamental a coordenação do Consórcio ZEE-BRASIL, que poderá ampliar adequadamente a divulgação dos conceitos e metodologias estruturantes para a futura sociedade sustentável que é desejada por todos.
Referências recomendadas:
Figueiredo, A.H.– Proposta de Atualização da Legislação sobre Zoneamento Ecológico-Econômico, In: Cadernos de Referência – Subsídios ao Debate – Programa de Zoneamento Ecológico-Econômico. Ed. Ministério do Meio Ambiente, 35-48 p, Brasília, Brasil. 2006.
Del Prette, M.E. & Matteo, K.C.– Origens e Possibilidades do Zoneamento Ecológico-Econômico no Brasil, In: Cadernos de Referência – Subsídios ao Debate – Programa de Zoneamento Ecológico-Econômico. Ed. Ministério do Meio Ambiente, 09-33 p, Brasília, Brasil. 2006.
* Integram o Consórcio ZEE-BRASIL os seguintes órgão públicos e ministérios: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE (MCT); Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (MPOG); Agência Nacional de Águas – ANA e Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis – IBAMA (MMA), Serviço Geológico do Brasil – CPRM (MME); Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA (MAPA); Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba – CODEVASF e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia – CENSIPAM (Casa Civil/PR); Instituto Nacional de Reforma Agrária –INGRA (MDA); Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA (SEA/PR); além da PETROBRAS.